
Trump é visto como o sumo sacerdote de um cristianismo político global, enquanto Bolsonaro foi alçado ao papel de representante local dessa fé
O debate contemporâneo sobre imperialismo e nacionalismo, reaceso pelas tensões geopolíticas atuais, ganha uma dimensão particular quando atravessado pela religião. Como destacou o cientista político Christian Lynch em entrevista recente, conceitos como destino manifesto, autoridade externa e os diferentes tipos de nacionalismo ajudam a explicar como a extrema-direita global articula fé e poder. No Brasil, esse processo se traduz em uma espécie de teologia política, que transforma a religião em motor de legitimação do autoritarismo e em elo de subordinação ao projeto norte-americano.
Desde o século XIX, os Estados Unidos construíram sua identidade internacional sob a ideia do destino manifesto: a crença de que seriam um povo eleito, destinado a liderar e expandir a democracia e a liberdade mundo afora. Esse discurso justificou a expansão territorial sobre Cuba, Filipinas e Havaí, no fim daquele século, e serviu de moldura ideológica para intervenções militares ao longo do século XX.
No século XXI, essa retórica ressurge na voz do movimento Make America Great Again (MAGA). Donald Trump encarna a figura de líder que combina política e fé, não apenas para reerguer a “grandeza americana”, mas para restaurar valores que seriam, segundo essa narrativa, eternos: família, autoridade, cristandade. Para setores da extrema-direita mundial, Trump se converteu numa espécie de “papa secular”, autoridade máxima de uma cruzada político-religiosa.
No Brasil, essa projeção externa gerou uma situação paradoxal. O que deveria ser um nacionalismo periférico – defensivo diante do imperialismo – foi substituído por um patriotismo reacionário voltado para fora. A lealdade não é com Brasília, mas com Washington. Trump é visto como o sumo sacerdote de um cristianismo político global, enquanto Bolsonaro foi alçado ao papel de representante local dessa fé travestida de política.
Temos aí dois caminhos históricos do nacionalismo. Nos países cêntricos, potências dominantes, o nacionalismo serve de base para justificar o imperialismo. É o caso do Reino Unido, da França e dos próprios Estados Unidos, que sempre exaltaram sua superioridade para legitimar a dominação de outros povos. Nos países periféricos, o nacionalismo geralmente tem caráter defensivo: busca consolidar a nação e proteger a soberania diante da pressão externa.
O caso brasileiro recente rompe essa lógica. Em vez de fortalecer um discurso nacionalista de defesa contra o imperialismo, setores da extrema-direita adotaram um cosmopolitismo religioso reacionário. À primeira vista, a expressão parece paradoxal, já que o cosmopolitismo, em sua tradição iluminista, está ligado à ideia de cidadania universal e à valorização da diversidade cultural. Mas, no caso da extrema-direita, trata-se de um universalismo que nega o pluralismo: projeta-se globalmente, mas para impor uma verdade única. É reacionário porque busca restaurar uma ordem hierárquica do passado, em que só há espaço para uma fé dominante e para lideranças autoritárias que se dizem portadoras da vontade divina. No Brasil, isso se manifesta na fidelidade deslocada de Brasília para Washington: a política se submete a uma lógica transnacional em que Trump é visto como líder supremo da cruzada cristã, e Bolsonaro como seu representante periférico.
É nesse ponto que a religião deixa de ser apenas elemento cultural para se tornar teologia de poder. O lema “Deus acima de todos”, de raízes integralistas, exemplifica essa lógica: a política é subordinada a uma ordem divina, com líderes apresentados como mediadores dessa vontade transcendente. Assim, ser brasileiro, nessa narrativa, significa ser cristão fundamentalista. Quem não se enquadra é excluído do corpo nacional.
Esse universalismo religioso não se confunde com o cosmopolitismo iluminista de Kant ou do liberalismo moderno. Trata-se de um universalismo reacionário, que justifica desigualdades, hierarquias e exclusões em nome de Deus. Se, historicamente, o cristianismo foi uma forma de universalismo capaz de criar vínculos entre diferentes povos, aqui ele é instrumentalizado para legitimar uma ordem autoritária e homogênea, baseada na negação da pluralidade.
Ademais, vale lembrar que essa teologia política de poder não surge do nada. Ela tem raízes profundas no calvinismo que moldou os Estados Unidos desde sua fundação. A tradição reformada, com sua ênfase na predestinação, na disciplina e no senso de “povo eleito”, foi central para a formação da identidade nacional americana e para o desenvolvimento do excepcionalismo. A ideia de que os Estados Unidos seriam uma “cidade sobre o monte”, incumbida de liderar o mundo sob um desígnio divino, deu base religiosa e moral ao expansionismo. Essa herança está viva no discurso do movimento MAGA: Trump, ao se apresentar como restaurador de uma grandeza perdida, mobiliza diretamente essa tradição calvinista de missão providencial.
Há que se prestar atenção ainda para a distinção entre patriotismo e nacionalismo. O primeiro, de caráter mais universalista, pode ser apropriado por diferentes ideologias. O segundo, em contextos periféricos, costuma ser defensivo e anti-imperialista. A extrema-direita brasileira, porém, inverte essa lógica. Ao invés de adotar um nacionalismo soberanista, opta por um patriotismo reacionário, que se ancora numa fé universalista e transfere sua fidelidade a um líder estrangeiro.
A consequência é clara: o Brasil perde centralidade como nação e se torna satélite de um projeto político-religioso maior, capitaneado pelos Estados Unidos. Em vez de contestar o imperialismo, o reforça. Em vez de construir soberania, a dissolve numa identidade cosmopolita que confunde fé e subordinação.
No Brasil, a ascensão evangélica encontrou solo fértil ao associar fé e política como elementos de identidade nacional. As igrejas pentecostais passaram a disputar espaços institucionais e eleitorais, ocupando cadeiras no Congresso, influenciando decisões judiciais e pautando agendas morais e econômicas. A religião não se apresenta como fator periférico da política: ela é um vetor central de poder.
O cenário atual, no entanto, aponta para uma transição geracional. Líderes históricos como Edir Macedo (80), R.R. Soares (77), Silas Malafaia (66) e Valdemiro Santiago (61) carregam consigo a marca de um ciclo que se confunde com a redemocratização do país e a consolidação das igrejas eletrônicas. Contudo, sua idade avança, e as linhas sucessórias em suas denominações não estão claras. Isso abre espaço para figuras como Deive Leonardo, evangelista catarinense de 35 anos que já reúne mais de 16 milhões de seguidores no Instagram e quase 10 milhões no YouTube.
Diferente da retórica combativa de Malafaia ou da máquina institucional de Macedo, Deive aposta numa linguagem estética de show e rede social, que aproxima a fé do entretenimento e conecta religião e juventude em moldes mais afetivos do que confrontacionais. Ele evangeliza com ritmo de espetáculo e estética cinematográfica, transformando a religião em um produto de massa consumido em plataformas digitais.
A questão central é saber se essa nova geração de influenciadores digitais evangélicos dará continuidade à teologia de poder que marcou a trajetória política das lideranças anteriores ou se ensaiará uma inflexão. Deive Leonardo pode representar tanto uma suavização da mensagem — menos ligada à política institucional e mais focada em espiritualidade pessoal — quanto uma nova forma de alavancagem de poder, mais difusa, mas ainda assim profundamente política, dado o alcance de suas redes.
A substituição de líderes tradicionais por celebridades digitais da fé levanta a hipótese de uma mutação na forma de expressão do poder religioso: menos centralizada em denominações e mais pulverizada em figuras de influência midiática. Essa transição pode redefinir o lugar da religião no jogo político brasileiro. Se os veteranos foram responsáveis por articular diretamente a fé com o poder institucional — apoiando governos, elegendo bancadas, pautando políticas públicas —, a nova geração pode operar numa lógica mais simbólica, mas não menos poderosa, influenciando comportamentos, discursos e percepções políticas em escala massiva.
A dúvida é se essa influência servirá para reforçar a lógica cosmopolita e reacionária já existente, ancorada na subordinação a projetos externos como o trumpismo, ou se abrirá espaço para uma religiosidade mais plural e menos subordinada a essa teologia de poder. No fundo, trata-se de uma disputa sobre o futuro da relação entre fé, soberania e democracia no Brasil.
Se em outros momentos históricos o nacionalismo periférico serviu como arma contra a dominação externa, no Brasil recente vimos o oposto: a religião fundamentalista foi usada como ferramenta para importar um imperialismo externo, mascarado de patriotismo. A extrema-direita brasileira não apenas abriu mão de um discurso soberanista, como cedeu sua identidade política a um projeto transnacional que tem em Trump seu líder máximo.
A disputa pelo sentido do nacionalismo brasileiro, portanto, não é apenas política ou econômica. É também religiosa. A fé deixou de ser espaço de crença e se converteu em pilar de poder, um motor ideológico que legitima a internacional da extrema-direita e projeta sobre o Brasil a sombra de um destino providencial que não é seu.

Marcio Ferreira
Jornalista, Doutorando em Sociologia Política, Mestre em Sociologia e sócio na Brotar Comunicação.